Quebra Pedras

BLOG DEDICADO A ALUNOS DE GEOLOGIA

domingo, 5 de fevereiro de 2017

USO DA BÚSSOLA E MEDIÇÃO DE PARÂMETROS DE ROCHA

A bússola é um ímã, assim como o planeta Terra. Todo ímã tem um pólo norte e outro sul, sendo que os opostos se atraem. Por isso, o pólo norte magnético da bússola (ponteiro pintado) aponta para o pólo sul magnético do planeta que, por coincidência, está perto do pólo norte geográfico da Terra.

"Algumas pessoas não sabem que a Terra é um ímã. Só que o pólo sul magnético do planeta fica perto do pólo norte geográfico. É por isso que a bússola está sempre apontando para o norte", explicou o professor de Física Bassam Ferdinian.
          
Que tipo de bússola?
       Vamos nos restringir às bússolas de geólogo.
A bússola de Geólogo
A bússola de Geólogo é um aparelho usado para atividades de campo mais técnicas como: Geologia, Engenharia Civil, Geomorfologia e Espeleologia.
Ela é a combinação de vários aparelhos: bússola, clinômetro, prumo, nível.


Uma bússola sempre aponta para o Pólo Norte?
        Respostas corretas poderiam ser: Sim! ; Nem sempre!; Quase nunca!
        Depende apenas de qual Norte estamos falando, de que bússola temos, e de onde estamos.  Vamos entender?
        A bússola eletrônica de um GPS e alguns modelos de bússolas eletrônicas (se assim configuradas) podem apontar para o Norte, pois elas podem se orientar por uma rede de satélites.  Já as bússolas magnéticas (e uma boa parte das eletrônicas),  não.  Aliás,  antes disso, devemos entender que existem mais de um Norte.
·         1.        Norte Verdadeiro (TN) - Posição geográfica da interseção do eixo de rotação da terra, com a superfície no hemisfério Norte. Este é o Norte Geográfico.
·         2.        Norte Astronômico (AN)  Aponta para a estrela Polar visível no hemisfério Norte. Tem um desvio de aproximadamente 0.7º em relação ao Norte Verdadeiro
·         3.        Norte Magnético (MN)  Ponto de convergência das linhas do campo magnético da terra. Tem um desvio de 10º para Leste.
·         4.        Norte da Bússola (CN)  É a direção da reta tangente à linha do campo magnético da localidade.  Complicado? Bem a explicação mais simples,  é a seguinte:  as linhas de  um campo magnético são curvas, como naqueles ímãs dos livros de segundo grau.  Mas para piorar,  no caso da Terra, elas são tortas,  e a agulha da bússola se mantém alinhada com esta linha de campo.  Os erros podem variar de 0 até algo perto de 35º,  muda com a latitude, longitude, altitude, e com a ocorrência de anomalias magnéticas. (???)  Calma, vamos entender isso logo adiante.

Uma dúvida sobre polaridade
        Se a Física ensina que em magnetismo pólos iguais se repelem, como é que a ponta Norte da agulha aponta para o Pólo Norte?  Será que os pólos da Terra tem nome trocado, ou são os pólos da agulha que tem os nomes trocados?   Nenhum dos dois.          Por convenção,  foi chamado de Pólo Norte Magnético aquele que ficava perto do Pólo Norte Geográfico.  A agulha da bússola é um magneto,  e por convenção, leva o nome de Norte a extremidade de um magneto que aponta  para o Norte.  Tudo claro agora?

Para fins de cartografia e orientação, qual o Norte interessa?
        Sem dúvida, o Norte Verdadeiro ou seja o Geográfico.  Por convenção,  o alinhamento vertical dos mapas aponta sempre para o Norte Verdadeiro.

Declinação Magnética
        Para que uma bússola possa apontar para o Norte Verdadeiro,  é necessário fazer uma correção em seu círculo graduado. O valor em graus desta correção,  é chamada “Declinação Magnética”. 
        Por que declinação e não inclinação?   Simples,  quem criou o termo foram pessoas do hemisfério norte, onde o campo magnético desvia-se para Oeste, e por isso devem-se subtrair do Azimute alguns graus para fazer a correção.  Por isso eles declinam a medida.  Nós aqui acrescentamos alguns graus ao Azimute, mas (sempre querendo concordar com os primos do Norte), usamos o mesmo termo “declinar”.

Vale a pena o trabalho de declinar a bússola?
        A tabela abaixo mostra a diferença em graus entre o Norte Verdadeiro e a Direção apontada pela bússola.  Esta diferença é a declinação a ser aplicada para diferentes regiões do globo.  É comum, e errado pensar que a declinação é a diferença entre o Norte Verdadeiro e o Norte Magnético.  Se fosse assim, ela seria constante para  qualquer lugar do planeta.
Localidade
Coordenadas
Declinação
Sydney - Austrália
34.0ºS 151.5ºE
13 ºE
Anchorage - USA
61.5ºN 150.0ºW
23 ºE
Buenos Aires - Argentina
34.5ºS 058.0ºW
06 ºW
Montreal - Canadá
45.5ºN 073.5ºW
16 ºW
Los Angeles - USA
34.0ºN 118.5ºW
14 ºE
Perth - Austrália
32.0ºS 116.0ºE
02 ºW
Rio de Janeiro - Brasil
23.0ºS 043.0ºW
21 ºW
São Petersburgo - Rússia
60.0ºN 030.5ºE
08 ºE
Ostrov, Bennetta, New Siberian Islands
77.0ºN 148.0ºE
11 ºW
        * Usando o modelo IGRF95 para a data de 1998, ignorando as anomalias.

Ok, só não entendi a legenda da tabela!
        De tempos em tempos, são levantados dados de campo,  e feitos modelos matemáticos que calculam a declinação para uma localidade em um determinado ano.  O IGRF95 é o modelo hoje em vigor. Esta tabela foi obtida segundo cálculos deste modelo.

Ótimo,... mas e as “Anomalias” ?
        O campo magnético da terra não é fruto apenas da  “materiais ferromagnéticos” que a constituem.  Ele é gerado principalmente por correntes subterrâneas de magma complexas, formando vórtices,  e cada um destes vórtices (redemoinhos de lava) provocam a formação de um dipolo magnético.  Estes dipolos tem intensidade diferente, orientação diferente, e são variáveis ao longo do tempo.  Além disso,  o Vento Solar interfere deformando o campo magnético da terra. Como se não bastasse,  ainda podem existir depósitos de minérios ferromagnéticos que também influem localmente.  No geral,  o campo é relativamente bem orientado, mas em alguns     lugares (Ex: Triângulo das Bermudas),  este erro é enorme e relativamente dinâmico. A tabela acima,  apresenta medidas genéricas, e não se responsabiliza por anomalias locais. 

A carta abaixo mostra através de curvas isogônicas, qual a declinação magnética em cada ponto do globo.
Por exemplo,  a linha de valor -28º  que passa sobre o sertão do nordeste brasileiro, indica que ao usar a bússola em qualquer ponto na proximidade desta linha, a bússola deverá ser declinada em 28º para Oeste.  Beleza?!




Mas a minha caminhada não é no Nordeste.  Como saber a declinação correta?
        Hoje, você visita um site da internet onde existe uma interface onde você informa a localidade, a Latitude, a Longitude  e o ano para o qual você quer a declinação.  O Observatório Nacional oferece este serviço. 
Acesse: http://www.on.br/conteudo/modelo.php?endereco=servicos/servicos.html

Aí,  você resolveu economizar uma grana e comprar sua bússola no exterior...
        Cuidado! Principalmente com as bússolas de geólogo, pois com estas, queremos e esperamos que sejam precisas. Saiba que uma bússola tem que ser balanceada para a latitude onde ela vai trabalha. O vendedor deverá remeter a bússola para o fabricante, para que eles calibrem a agulha.
        Na fábrica, eles colocam um peso na ponta Sul  (no nosso caso),  para que ela fique equilibrada.  A intensidade deste peso depende da sua latitude. Se não fizer isso, a agulha não vai ficar equilibrada sobre o eixo central.
        Bússolas geográficas,  são mais baratas,  e são construídas para funcionarem mais ou menos bem entre os trópicos.

Ok, já sei que tenho que calibrar e declinar a bússola, e que correção aplicar.  Mas como é que se declina a bússola?
        As bússolas Brunton mais modernas, bem como as Silva 15 (Ranger), Suunto MC-1, e Nexus N15 possuem um parafuso de ajuste.  Este parafuso de ajuste, ligado a um sistema de engrenagem,  faz o disco de azimute girar,  ou então um fundo de acrílico girar.  Isto facilita muito,  pois as linhas meridianas marcadas no disco de acrílico podem ser alinhadas com os meridianos do mapa.
        Conclusão:  Se for comprar uma bússola, certifique-se de que ela tenha o parafuso para ajuste de declinação.

Usando a bússola para orientar um mapa
        As próximas instruções devem, se possível, serem seguidas com um mapa e a bússola em mãos. Vai facilitar muito o entendimento do texto.


A função mais básica de uma bússola em uma caminhada, é orientar corretamente o mapa. 
Portanto, para orientar o mapa, precisamos da direção do Norte Geográfico, ou seja, de uma bússola que o indique.

Usando a bússola de geólogo, repouse-a declinada sobre o mapa, fazendo o eixo longitudinal dela (da lingüeta) coincidir com o meridiano. Então gire o mapa até que a ponta "N" da agulha coincida com o Zero da escala. Neste ponto o mapa estará orientado.  Na figura ao lado, temos a bússola declinada de 19ºW,  e o mapa deve ainda ser girado para a esquerda até que a       agulha "N" coincida com o Zero da escala.



      

Extraindo uma direção para caminhar
        É normal você identificar sua posição, orientar o mapa, e visar um ponto que você quer atingir. Neste caso, você vai querer saber qual a direção (Azimute) em que você deve caminhar para ir direto ao ponto.
        Para isso, antes de orientar o mapa, identifique no mapa sua posição atual e seu ponto de destino.  No mapa abaixo, imagine que você está na Faz. Brumado (pertinho da estrada), e quer caminhar até o pico da Pedra Aguda. 




     
 Achou?  Legal!  Use a régua de acrílico da bússola, e com um lápis, faça um traço que una estes pontos (traço vermelho). Se achar necessário, trace uma reta paralela ao meridiano, pois esta indica a direção norte no mapa (traço azul).  Coloque a bússola sobre o mapa, de preferência, com o eixo central sobre a sua posição atual.  Gire o mapa até que ele esteja corretamente orientado (até que a ponta "N" da agulha coincida com o Zero da escala).  



       
     Olhando o ponto onde a linha que você riscou (linha vermelha), intercepta o círculo graduado da bússola, você poderá ver a direção a ser tomada (260º com o Norte, medido no sentido horário).   Agora, agora guarde o mapa, e com a bússola na mão, gire a bússola até que a agulha "N" aponte para o ângulo 260º no círculo graduado. Neste ponto, a lingüeta (mira) da bússola, estará apontando para o Pico da Pedra Aguda.  À medida do possível, caminhe nesta direção, sempre de olho na bússola. Se estiver com a bússola geográfica, siga na direção apontada pela seta vermelha gravada no acrílico. 
        Acontece que a bússola (que é parente do GPS), adora indicar o pior caminho. Com isso, você de vez em quando, vai ter que sair da direção correta para desviar de algum obstáculo (morro, pântano, espinheiro, abismo, etc.)  Ao fazer um desvio significativo, ou depois de caminhar um bocado, você deve reavaliar a direção.  Veja que a direção era correta, para quem estava lá na sede da Fazenda.  
        No nosso exemplo, tem um morro no caminho (aquele cujo pico está na cota de 997 m).  Claro que você desviou, provavelmente pela esquerda.  Quando você optou por fazer este desvio, você deverá novamente reavaliar a direção.  Veja no mapa abaixo, o caminho pontilhado verde, é o que você caminhou,  e a reta verde, é sua nova direção.


        
      Vemos agora que o Azimute deixa de ser 260º para 275º.   Ah!  desculpe a mancada, a reta que indica o norte traz o nome NM (Norte Magnético), quando na verdade é o NG (Norte Geográfico). 
      Acho que agora ficou claro, porque muita gente se perde navegando com bússola.  A direção tem que ser constantemente reavaliada!
        Veja que talvez não fosse necessário, visto que o Pico da Pedra Aguda deve ser bem visível, e está próximo (cerca de 4km).  Mas ele poderia ser uma depressão,  um encontro de rios, uma caverna, ou qualquer outro ponto menos evidente.

Texto obtido em: http://www.geomundo.com.br/geografia-30154.htm. Acesso em: 07/5/2014.

Agora que você se inteirou do uso da bússola, aprenda a usá-la em geologia estrutural. Clique em: como medir parâmetros de rocha.

SEGURANÇA NO CAMPO

“Não existe  absolutamente nenhuma substituto para o mapa e a seção geológicos.  Nunca existiu e nunca existirá. A geologia básica deve ser uma prioridade – e se estiver errada, tudo que vier em seguida provavelmente estará errado.” (Wallace)

Os riscos fazem parte da natureza do trabalho de campo, assim como da distância, das condições climáticas, da topografia e das características específicas da área a ser mapeada. Antes de iniciar o projeto de mapeamento, deve ser realizada uma avaliação de risco, formal. Isto determinará as precauções de segurança e o equipamento necessário em campo.

Saber nadar, saber dirigir, conhecer técnicas paramédicas e estar na posse de mapas rodoviários atualizados, celular e estojo de pronto-socorro, podem fazer uma grande diferença no campo.


Comportamento em campo




      Não deixe porteiras abertas, não pule cercas, não pise nas plantações, não deixe lixo, não perturbe animais.
      Não use o martelo indiscriminadamente. Colete apenas aquilo que você precisa para sua pesquisa.
      Sempre peça permissão para entrar em propriedade privada.



Retirado de: LISLE, R. e outros. Mapeamento geológico básico: guia geológico de campo. Porto Alegre : Bookman, 2014. 

INTRODUÇÃO À GEOLOGIA DE CAMPO

O texto abaixo é tradução livre, destinado ao estudo

Introdução à Geologia de Campo
M.L. Bevier. Introduction to Field Geology. file:///D:/Music/bev_ch01.pdf
Capítulo I

É o final da manhã de um dia claro na Livingstone Range das Rochosas Canadenses, e você subiu várias horas através de uma seqüência de unidades sedimentares bem acamadadas. Você observa que está subindo através de um pacote de estratos mais jovens, e que as camadas mergulham todas na mesma direção. Enquanto recupera o fôlego no topo de uma crista e admira a vista, você nota que o mergulho das camadas inverteu. Começa uma grande discussão entre os membros do seu grupo de campo a respeito das possíveis razões da inversão do mergulho (Figura 1.1). O que está acontecendo geologicamente? Existe uma dobra? Vocês atravessaram uma falha? Vocês podem determinar o momento do evento deformacional que causou a reversão do mergulho? Muitas ideias são sugeridas para explicar a reversão do mergulho, e não há um consenso. Como, então, você resolve o problema? Depois de alguma discussão, o grupo conclui que existem várias interpretações possíveis, e várias soluções possíveis para resolver a questão dobra versus falha. Depois de um lanche, você e seu parceiro mapeamento seguem em uma direção, enquanto outras equipes de mapeamento seguem outras rotas para ver se eles podem resolver o problema.



O exemplo anterior destaca o uso do método científico para resolver problemas de campo. Você faz observações cuidadosas das relações geológicas, registra-as com precisão em seu notebook de campo, desenvolve ideias, (hipóteses) sobre a estratigrafia e estrutura de uma área e testa essas ideias. Finalmente, você deve criar um mapa geológico que retrate com precisão seus dados, observações e interpretações.

Agora, imagine que você foi contratado para o verão como assistente de geólogo de campo. Isso provavelmente vai ser o seu primeiro trabalho em geologia, e você está compreensivelmente ansioso sobre os desafios que esperam por você durante o verão. Você completou dois anos de uma graduação em geologia. Um curso básico de geologia o preparou para este trabalho de verão. Se executá-lo bem, você pode até mesmo ser convidado a permanecer em tempo parcial com o seu empregador durante o ano letivo para continuar a trabalhar no projeto. Certamente, um período de experiência de trabalho no campo vai torná-lo muito mais empregável no futuro. Mas o que você vai fazer todos os dias no campo? O que se espera de você? Este livro irá ajudá-lo a responder a essas perguntas.

Um dia típico de campo

É difícil descrever um dia típico no campo, porque há uma gama de possíveis projetos envolvidos, todos com diferentes objetivos. Em determinado dia você pode caminhar uma grande distância, subindo e descendo as montanhas, ou você pode sobrevoar de helicóptero uma área alvo. Você pode criar um mapa geológico medindo direções e mergulhos em camadas dobradas e traçar contatos geológicos, ou usar um mapa geológico existente para localizar e amostrar rochas ou sedimentos para análise química. Podem aparecer desafios logísticos associados com o clima, terreno, ou animais selvagens. À noite, você irá rever o que você fez naquele dia, atualizar o mapa e notas. Talvez embalar amostras para envio e discutir suas observações e perguntas com outros geólogos, bem como se preparar para o dia seguinte no campo. O foco principal deste livro é sobre os métodos padrão de fazer geologia no campo, incluindo técnicas digitais usadas durante o trabalho de campo e para a produção de mapas. Além disso, há breve relato de várias técnicas de mapeamento de subsuperfície que complementam os métodos tradicionais.

O que é geologia de campo e qual a sua importância?

geologia de campo envolve a integração de dados espaciais, descritivos, estruturais, petrológicos e temporais para compreender a constituição geológica e a história de uma área. Mapas geológicos, seções transversais e relatórios escritos de uma área são os resultados tangíveis desta síntese. Muitos geólogos de campo concentram-se primariamente em fazer mapas geológicos. No entanto, outras tarefas de campo incluem amostragem de rocha por razões específicas (por exemplo, análise elementar, geocronologia, identificação de fósseis), medindo a orientação das estruturas particulares de uma área, ou descrevendo testemunhos de sondagem.

Os mapas geológicos são utilizados para orientar a busca de recursos minerais e energéticos, para avaliá-la e, naturalmente, mitigar riscos potenciais, e para auxiliar no planejamento do uso da terra. Um mapa geológico é a maneira mais clara e concisa de comunicar informações geológicas deuma parte da superfície da Terra; ele representa uma interpretação dada pelo(s) autor(es), com base nos dados disponíveis no momento da publicação, quanto à natureza e distribuição espacial das unidades de rocha em uma área. Símbolos padronizados, padrões e cores são usadas para descrever unidades de rocha, com idades, estruturas e localidades importantes, como ocorrências fósseis e minerais. Quaisquer cortes transversais e relatórios geológicos que acompanham os mapas geológicos representam maneiras adicionais de apresentação de dados e interpretações geológicas.

Os dados de campo são comumente incompletos, e podem ser interpretados de maneiras distintas. Tendo em conta o objetivo de um projeto de mapeamento, o orçamento e o tempo previstos para o projeto, você tem que apresentar a melhor interpretação da geologia com base nos dados disponíveis, e você deve confiar em suas próprias observações e conclusões. Em alguns casos, não há uma única resposta correta para um problema de campo. A conclusão bem sucedida de projetos de campo aumenta a autoestima, a capacidade de tomada de decisão e outras habilidades profissionais. Todos os geocientistas, mesmo experimentalistas e teóricos, precisam ter alguma experiência básica de geologia de campo.

O que torna um geólogo de campo bem sucedido?

A Tabela 1.1 lista alguns dos atributos que as instituições governamentais de pesquisa geológica, empresas de exploração mineral, empresas de exploração de petróleo e gás e empresas de consultoria ambiental e engenharia procuram em um potencial geólogo de campo.


Tabela 1.1
O que os empregadores querem que você saiba sobre geologia de campo?
Como ler um mapa topográfico ou fotografia aérea e localizar-se
Habilidade de caminhar e movimentar
Uso da bússola Brunton para medir estruturas lineares e planares
Como localizar por bússola
Uso de receptores GPS portáteis, e conhecimento de suas limitações
Saber como localizar e traçar com precisão dados geológicos em um mapa geológico ou foto aérea e localizar a si próprio
Capacidade de reconhecer e medir estruturas sedimentares e características estruturais (dobras, falhas - deslocamento, lineações, foliações)
Como medir uma seção estratigráfica
Habilidades de identificação de rocha (amostra de mão e seção delgada, rochas frescas e alteradas, assembléias de minerais)
Capacidade de tomar notas organizadas, coerentes e legíveis
Capacidade de coletar amostras de rochas e fósseis adequadamente; capacidade de reconhecer a rocha adequada para análise, dependendo da finalidade (por exemplo, a determinação da idade de microfossil, a determinação da idade radiométrica – Qual ou quais minerais acessórios para técnica de datação, assembleias de alteração)
Capacidade de visualizar e pensar em três dimensões
Alguma familiaridade com software de mapeamento
Capacidade de planejar e executar independentemente, e precisão ao plotar os resultados de uma campanha
Capacidade de sintetizar dados em um quadro geral; Reconhecer quais são as observações geológicas mais importantes em uma área, dependendo do problema a ser resolvido
Capacidade de escrever relatórios em tempo hábil; Que os relatórios de gravação sejam concisos, mas completos
Segurança no campo
Tenha uma atitude positiva (todos os dias, em todas as condições, em todos os projetos)

Baseado em uma pesquisa de instituições governamentais, indústrias e, empresas de consultoria que empregam geólogos de campo, realizada pela geóloga ML Bevier em Vancouver, British Columbia, de 1994.

Características do geólogo de campo

Um geólogo de campo bem sucedido é um multifuncional "pau para toda obra" que princípios geológicos sólidos, mas também tem uma série de habilidades complementares, sendo elas: bem organizado, possuidor de bom senso, e tendo a capacidade de manter uma atitude positiva em inúmeras situações. Ele ou ela percebe que uma preparação cuidadosa começa antes de um projeto, inclusive tornando-se familiarizado com o trabalho anterior na área e falando com outras pessoas que trabalharam lá, é tão importante quanto fazer o trabalho de campo. Um geólogo de campo deve ter excelentes habilidades de observação, ter a capacidade de fazer medições precisas e estimativas de comprimentos e quantidades, e ter pelo menos alguma experiência em petrologia e mineralogia, geologia estrutural, geomorfologia, estratigrafia e paleontologia.

A capacidade de traduzir uma representação tridimensional de dados de mapas em uma seção transversal e a capacidade de escrever relatórios técnicos também são partes vitais do repertório de um geólogo de campo.

Mapas e bancos de dados digitais associados que armazenam grandes quantidades de dados geológicos em camadas (ver Capítulo 12) são agora padrão no local de trabalho profissional, e tornam possível para qualquer um criar mapas temáticos derivados ou consultando um banco de dados seletivamente. O estudante de hoje precisa ser capaz de integrar técnicas de mapeamento tradicional, com a captura e manipulação de dados digitais. No entanto, as respostas dos empregadores listados na Tabela 1.1 sugerem que a sua capacidade para enfrentar os desafios especiais de um projeto de campo específico, sejam eles científicos, pessoais ou logísticos,é mais importante para empregadores do que o fato de que você esteja familiarizado com um específico programa de mapeamento computadorizado, o qual pode ser substituído em futuro próximo (embora esta habilidade possa ser um bônus).

Heath (2000, 2002) entrevistou empregadores de geocientistas sobre as habilidades técnicas e não técnicas mais importantes que eles querem ter em seus empregados. Resultados de uma pesquisa similar, especificamente aplicável à geologia da indústria do petróleo, estão disponíveis online em

Como você aprende geologia de campo?

Para ser um geólogo de campo bem sucedido, você deve ganhar experiência prática com uma variedade de conjuntos de rochas, terrenos e climas. Há uma grande satisfação em produzir um mapa que mostra a distribuição das unidades de rocha e estruturas envolvidas em uma área, especialmente depois que você caminhou sobre a maioria delas. O trabalho de campo pode ser sacrificante – é normal ficar frustrado em algumas ocasiões porque não há necessariamente uma resposta simples para um problema de campo. Existe apenas a sua melhor interpretação, com base em dados geológicos disponíveis e seu conhecimento.

A grande mudança no campo da geologia ao longo dos anos 1990 e no século 21 é o aumento da utilização de métodos digitais para registro de dados, produção de mapas geológicos e mapa de dados para consulta de forma seletiva, mas os geólogos continuam a caminhar, descrever estratos, medir estruturas, e desfrutar (ou suportar) o clima e o terreno. Um bom mapa geológico ainda depende principalmente das habilidades do geólogo de campo que o elabora, e não de gráficos ou apresentações chamativas.

Para isto, você precisa de uma combinação de cursos específicos em subdisciplinas de geologia, tais como mineralogia, petrologia, geologia estrutural e geomorfologia, mas você deve ter também competências básicas ao ar livre e um bocado de senso comum. Acima de tudo, você precisa trabalhar facilmente com conjuntos de dados incompletos, porque um geólogo de campo bem sucedido é um generalista, que pode sintetizar uma grande quantidade de dados aparentemente díspares em uma coerente e razoável interpretação geológica de uma área.

Provavelmente, os seus primeiros mapas geológicos não serão obras de arte. Você pode ter lacunas em seus dados com as quais você não saberá lidar, mas você ainda terá de fazer interpretações geológicas razoáveis e consistentes com os dados disponíveis para terminar seu mapa dentro do prazo. Com experiência maior e variada, e críticas de mentores, suas habilidades para descrever rochas e relações de campo, para medir estruturas e para interpretar conjuntos de dados complexos irão melhorar, e assim também os mapas geológicos que você vai elaborar.

SEGURANÇA E ETIQUETA NO CAMPO

Exaustão por calor, um corte profundo que requer pontos, gripe, uma picada de aranha infectada e um tornozelo torcido - estes são exemplos de doenças sofridas pelos alunos no campo que exigiriam idas ao pronto-socorro. Estudantes já morreram no campo por escorregar nos topos das falésias ou por afogamento em rios e lagos. Acidentes com veículos, enquanto que viajam ao campo, também causaram prejuízo e perda de vidas. Embora você não possa garantir evitar qualquer emergência, muitos acidentes podem ser prevenidos no campo, com um planejamento cuidadoso e atenção aos procedimentos de segurança. Estes procedimentos cobrem o trabalho de campo, vida no campo, e as viagens de e para a área do campo, e devem ser lidos em detalhe. Aderindo a eles, você vai fazer do trabalho de campo uma experiência segura e agradável para todos os envolvidos.
Distinta da segurança, mas tão importante quanto ela, é o domínio da etiqueta, que inclui tópicos como: impacto ambiental, comportamento pessoal, obtenção de autorização para entrar em propriedades privadas (Anexo B). Sempre lembrar que você é um embaixador da profissão cada vez que você for para o campo e agir em conformidade.

A Geologia de Campo pode ser um monte de trabalho duro, mas é gratificante por usar uma ampla gama de conhecimentos e habilidades para resolver problemas geológicos de campo. O trabalho no campo oferece oportunidades para usar e integrar conhecimentos de várias sub-disciplinas em geologia.


Você é encorajado a tomar todas as oportunidades possíveis para aumentar sua experiência de campo e habilidades, e para expandir e melhorar suas habilidades para fazer e interpretar mapas geológicos.A capacidade para resolver problemas no campo é essencial para uma carreira como um geocientista. Trabalhe com segurança e seja um bom representante para a sua profissão.

EQUIPAMENTOS DE CAMPO

Os geólogos precisam de vários equipamentos de campo. A seguir, vamos falar sobre o uso e a utilidade deles.

Martelos e Cinzéis

Qualquer geólogo que vai ao campo precisa de, no mínimo, um martelo para quebrar rochas. Para mapeamento de rochas ígneas e metamórficas mais duras, geralmente se usa um martelo mais pesado. Entretanto, martelar nem sempre é a melhor maneira de coletar rochas ou fósseis. Por isso, estar de posse de cinzéis pode ser garantia de um trabalho de melhor qualidade.



Bússolas

A bússola é um instrumento indispensável em trabalhos geológicos de campo; através dela o geólogo pode não apenas fazer medidas estruturais, mas também localizar pontos, orientar serviços de campo e se orientar durante os deslocamentos.




Lupas de mão




Trenas


Porta-mapas



Caderneta de campo

Nunca economize na sua caderneta de campo: boa qualidade, à prova d’água, capa dura, forte e boa encadernação. Ideal que caiba no bolso. Opte por aquelas com papel milimetrado.

Escalas

São mais apropriadas que réguas. Muitas possuem cantos arredondados e exibem gravações em ambos os lados, com quatro diferentes graduações.
Graduações: 1:50.000 1:25.000 – 1:12.500 – 1:10.000.


Transferidores

Características práticas: 10 a 20 cm de diâmetro, semicirculares, transparentes.



Canetas de mapeamento

Tenha um conjunto c/ diferentes espessuras de linha. Não as utilize em campo. Pense bem antes de usar tinta em seu mapa. Tenha caneta marcador permanente p/anotar em sacos de amostras.

Lápis

2H ou 4H (duro): traçar orientações. H ou 2H (macio): marcar direções e anotações no mapa. 2H, HB ou F: para escrever na caderneta de campo
Não use B (borra). Compre lápis c/borracha. Tenha lápis coloridos.

Ácido clorídrico diluído

Leve sempre um frasco de ác. clorídrico a 10% na mochila. Para um dia de trabalho, 5 mL são suficientes. As embalagens de conta-gotas de colírios ou similares são excelentes; porém, não se esqueça de identificá-las.

GPS

Os GPS não são equipamentos fundamentais para o mapeamento, mas são essenciais se você estiver trabalhando em regiões remotas, como desertos. Entretanto, são uma ajuda extra, segura e útil.



Os aparelhos GPS mais baratos vão fornecer somente as coordenadas de localização, enquanto que os mais caros vão indicar a localização atual em um mapa-base digital carregado previamente ou em fotografias aéreas mostradas em uma pequena tela. Todos os modelos têm a capacidade de armazenar um grande número de pontos de localização intermediários na memória. Quando você estiver em campo, seu mapa-base de papel provavelmente usará um sistema local de coordenadas cartográficas UTM, porém o GPS fornece localizações de latitude e longitude globais. É de extrema importância que a latitude/longitude informada pelo GPS possa ser recalculada pelo aparelho, exatamente com o mesmo sistema de coordenadas locais do seu mapa-base; caso contrário, seu GPS perderá a maior parte da funcionalidade em mapeamento e servirá apenas como um dispositivo de segurança. A biblioteca para conversões de mapas disponíveis difere em todos os GPS. Por isso, confira se seu GPS é compatível com o país no qual você planeja trabalhar.


Estereograma (stereonet)


O estereograma é uma calculadora gráfica para o geólogo, útil para uma grande variedade de problemas estruturais: caimento, direção, mergulho. É uma ferramenta qualitativa de fácil uso para a inserção de pontos e vetores em um sistema de projeção de coordenadas tridimensionais.

São usados o de Schmidt-Lambert (rede de igual área) e o de  Wulff (rede de igual ângulo). No entanto a Rede de Schmidt é a mais usada em geologia estrutural por permitir um estudo estatístico mais acurado.

Para aprender mais sobre o uso do estereograma, visite a página:


Material  extraído e modificado a partir de: LISLE, R. e outros. Mapeamento geológico básico: guia geológico de campo. Porto Alegre : Bookman, 2014.